Quase um desabafo

Padrão

Às vezes, quase sempre ainda parece faltar algo, mas eu sei (já faz um bom tempo) que não é você. Sou eu! Eu me perdi algumas vezes e a parte que me falta ainda me fere.

Não temo mais a mudança. Eu mudei, mas ainda dói não ser o que era. Sei também que tudo o que deixei de ser me tornou o que sou (a prova disso é minha descrição que tá aí sei lá quantos anos…), mas a que custo? Não queira saber.

Às vezes, quase sempre, é pesado. Já enverguei mais do que posso contar e me reergui tantas outras vezes com a potência que nunca pensei ter. Você não entenderia a missa 1/3 e eu não sou capaz de descrever quase nada.

Me perco, divago e as palavras se vão, quase como um lampejo… Há muito para se dito e nada ao mesmo tempo.

Sorrio, gargalho e choro, A vida é isto mesmo ou não sei viver?

Ainda parece que foi ontem. Ainda parece que faz tanto, tanto, tanto, tanto tempo…

Conversa de bar XXIII

Padrão

Tenho evitado as palavras – por covardia, eu sei -, mas é que o pavor de externalizar o óbvio ainda me consome.

Tenho fugido das redes sociais e feito o que todo caranguejo faz quando se sente ameaçado. Parece que a qualquer momento tudo vai desabar e eu, que me desmembrei toda, tenho receio de não conseguir juntar outra vez meus cacos.

Tenho repetido que vai ficar tudo bem e que como diz qualquer parede ou superfície com pixo pras bandas do Ceará: vai dar certo! Será???

Tenho engolido a seco o pavor do que ainda pode acontecer. 2022 não pode ser pior e ainda assim, sinto que será. Parece que não aprenderam nada. Também não me admira. A máscara deles nunca mais foi usada e não estou falando no sentido preventivo…

Tenho buscado forças nas pequenas vitórias cotidianas. Os encontros com o Projeto Mulheres Negras Resistem, a permanência com bolsa no Doutorado, a família permanecer saudável, os amigos verdadeiros ainda existirem, o artigo científico enviado, os goles de vinho e os livros que chegam pelo correio uma vez por mês ou quase isso, as contas enfim em dias, etcetera etcetera etcetera e tal.

A gente se reinventa todo dia e ainda assim, parece que falta um pedaço.

Tenho evitado as palavras, mas elas andam se espalhando por todo canto da casa. De quando em vez, quase sempre, junto tudo e faço um sarapatel de palavras

(indizíveis).

Padrão

Contar a história, recontar a história, explicar os efeitos de nossos atos, apontar o exato momento onde tudo deu errado e ficamos à deriva enquanto contavam e recontavam uma história que não era verdadeira mas insistiam em comprá-la. Era mais “fácil” ouvir o Messias do que acreditar na ciência e nos fatos…

Até quando seguiremos assim? É o que me pergunto todo dia.

Do lado de cá, parece que a cura já foi encontrada e eu não fiquei sabendo. As palavras que já eram poucas, sumiram com medo de dizer coisas absurdamente reais, tais como: o brasileiro só pode ter perdido o medo de morrer ou de uma hora pra outra resolveu confiar demais num cara que sequer tinha coragem de participar de debates, que forjou facada, etcetera, etcetera, etcetera e tal.

Abortei palavras, mas o peso da materialização de sua existência ainda dói em mim.

(Des)alento

Padrão
Fonte da imagem: Tumblr.

Tenho questionado o sentido da vida e das cousas. Poderia dizer que por culpa da situação em que nos encontramos, mas a verdade é que sempre foi assim. A busca por um sentido me trouxe até aqui. Foi essa inquietação, esse incômodo com o que estava posto à mesa que de início me fez pensar: “quero ser jornalista”. Lá pra frente, a busca pelo “inconstantenoplascente”(saudoso desde a 7ª série) me fez chegar na antropologia, contudo, não sem antes me fazer adentrar no mundo dos movimentos sociais.

O medo de não ser capaz e/ou qualificada esteve presente o tempo todo, mas a promessa que fiz de nunca mais me paralisar também me ajudou a chegar até aqui. Aquela adolescente sonhadora que desejava conquistar meio mundo de cousas, ao passo que era insegura e se achava insignificante demais para conquistar grandes feitos, foi quem me trouxe até aqui (na real).

Se eu pudesse voltar no tempo e ter com ela um bocadinho de tempo, diria para ela não se preocupar tanto assim e que parasse de se diminuir, porque no final das contas, quem é que não faz cagadas e é desqualificado para sabe-se la o quê com seus 15/16 anos? Eu, beirando aos 29 anos faço cada estrago na minha vida tentando achar o “caminho”…

Diria também que no final, ela viverá bem e que apenas três arrependimentos a assolarão nos dias futuros. O primeiro tem a ver com os livros não roubados de Mário Quintana e que provavelmente se acabaram no fundo de um armário velho cheio de morfo e sem contato nenhum com a vida humana. Quintana definitivamente não merece isso!!!

O segundo, é a história de um amor inventado que só trouxe desafeto, choro e ranger de dentes (Cazuza sempre esteve certo. Disso nunca duvidei)… Nunca entenderemos o quê e porquê diabos foi/teve aquilo, tampouco por que depois de todo esse tempo, seguimos nos maltratando e nos tratando como se fossemos as piores pessoas do mundo e que sequer merecemos aquilo que um dia ousei chamar de “adanadan” (Você, com seus 17 anos iria nos entender). Agora que coloco isso escrito, me vem uma vontade enorme de rir.

Acho que sempre damos importância demais para as cousas indevidas. Foi assim quando você levou as palavras de um desconhecido ao pé da letra, foi assim quando aquela ligação te deixou sem norte, quando aquela pulseira não fazia sentido, tampouco o que deveria ser feito com ela… Foi assim quando misteriosamente eles foram embora, tão rápido quanto surgiram e nunca mais, por motivo algum quiserem ter um minutinho de prosa contigo. Foi assim com as mensagens não entregues, as correspondências não recebidas, os chocolates sem gosto e a ex namorada… Foi assim quando o travesseiro não fez sentido, prender o ar também não e o medo era um ato de coragem e não de fraqueza, mas você não entenderá isso tão cedo. Foi assim quando você enfim viu o “sobrenatural” e se sobressaltou com ele, bateu o pé que não, mudou a rota e tempos depois, o encontrou em outras tantas vezes…

Foi assim quando você levou as palavras ao pé da letra e fez daquele texto um sacrifício satânico e tornou sua própria vida um inferno em que você erroneamente achava que merecia viver.

O terceiro ponto (esse ficará aqui, comigo, porque já foi externalizado antes e já tratei de me redimir comigo mesma e com minha mãe), os outros… bem, o primeiro não tem o que ser feito e o segundo, não sei se de fato consegui. Diferentemente do jovem médico de “Descendentes do sol”, ninguém chegou até mim e me disse que enfim, tinha feito um bom trabalho e que poderia, enfim, me libertar do peso de viver a vida sem ter que se preocupar com um erro cometido. Afinal, a vida é bem mais do que apenas isso.

Há tanto para se viver e no entanto, insistimos em nos trancafiarmos em porões antigos, revivendo memórias falhas e talhadas por nossas lembranças tendenciosas e julgadoras. E é por isso que eu escrevo!Para dizer que está tudo bem e que ficarás bem. Para dizer que o mundo não é tão bom e justo assim e que as pessoas não são apenas boas ou más (exceto Bolsonaro. Ele só tem o que é de pior e ponto!!!)

E é por isso que esse texto existe, para te libertar, porque te libertando, egoistamente ou estrategicamente, também me liberto, me perdoo e faço as pazes comigo. Foi o que fiz, porque percebi que para se chegar em algum lugar, primeiro a gente (eu) precisa estar (aqui).

E no entanto, aqui estamos

Padrão

Deixar as palavras correrem despretensiosamente pelo caderno tem sido tarefa difícil. Parece que desaprendi a escrever ou o peso das palavras tem me deixado cada dia mais envergada e desanimada para assim o fazer. No entanto, vez por outra percebo meus dedos escrevendo frases imagináveis em superfícies que não estão preparadas para suportar o fardo das palavras não ditas.

Abriu uma brecha aqui dentro. Fechei três janelas e troquei por paredes as portas de entrada e saída. Nada poderia me encontrar e no entanto, fui atingida. Fugir para onde se você está sempre aqui (dentro de mim)?

Não

Não é

Não é que

Não é que eu

Não é que eu não

Não é que eu não tenha

Não é que eu não tenha superado

Não é que eu não tenha superado o

Não é que eu não tenha superado o que

Não é que eu não tenha superado o que foi

Não é que eu não tenha superado o que foi vivido

Não é que eu não tenha superado o que não foi vivido.

Nada disso! Só não aprendi (ainda) a lidar com o que restou de mim, com o que me transformei. Eu jurava que seria tudo diferente e no entanto, aqui estamos… Todos, de um jeito ou de outro, fodidos.

Você foi em busca da cura, mas esqueceu de perguntar qual era a doença que iria afligir a humanidade. Eu fico me perguntando se você se preparou ou está preparado para tudo isso que está acontecendo. Eu e toda a gente foi pega de surpresa, com a cara ainda pra lavar e as roupas no varal, e estamos, até dado momento atônitas.

Apesar de tudo e por mais contraditório que pareça, acho que está tudo bem, embora não consiga dormir como deveria, tampouco me concentrar em algo realmente produtivo (se é que eu preciso me concentrar em algo realmente produtivo em meio a uma pandemia) e bem… como eu ia dizendo, parece que está tudo bem, embora cada dia que passe minhas olheiras fiquem cada dia mais medonhas e meu cabelo não esteja recebendo o cuidado que deveria. Na verdade não está nada bem. Quem eu quero enganar?

Quando o Senhor D, parou de me responder, entendi que as cousas estariam entrando nos eixos. Agora já não sei. Acho que ele só não quis dizer nada. Típico de velho ranzinza que só faz o que quer (eu sei porque apesar da pouca idade, sou dessas!)

Terminei 2019 aos prantos e com medo do desconhecido, mas nunca imaginei que o nome “Confissões no fim da trilha” fosse tão apropriado como hoje parece ser. Se eu soubesse, não teria mudado a URL do blog (rsrsrs). Parece que faz tanto tempo e no entanto, ainda me recordo das coisas minúsculas e (in)significantes que colhi pelo caminho e que insistem em me preencher..

Nunca foi só um ponto de vista, tinha sempre algo a mais. Tampouco foi só sobre o que era certo ou errado, mas sobre onde, como, quando, e o quê faríamos depois de nossos erros e acertos. Sigo pensando que aprendi a lição e no entanto, ainda assim, há sempre algo novo a ser descoberto. Você não faz ideia de como é viver com um ponto de interrogação na mente (e no coração), mas isso é coisa para outro dia.

Pega a visão

Padrão

Encarar nossos sonhos, concretizá-los, não devia ser tão difícil assim. “Somos todos seres humanos”, eles dizem. E como me explicam todas essas disparidades

(raciais, de gênero, classe, etecetera, etecetera e tal)???

Eu sei a resposta, eles também. Não vou passar pano pra seu ninguém, não!

Viver nossos sonhos, concretizá-los, não deveria ser tão sofrido assim. Matar um leão por dia? Isso seria fácil… Difícil mesmo é, no mínimo, suportar um racista por dia.

Difícil é ter que falar pela terceira vez que você está ali porque passou no doutorado em Antropologia. Eles parecem que não conseguem vislumbrar pretas doutoras. E eu não consigo conceber que de tantas pretas que tentaram a seleção apenas duas (e as de pele mais clara) passaram. Quase que a contragosto. Meio que a contramão. Eles tiveram que nos engolir, então.

Lutar por nossos sonhos, não desistir deles é tarefa árdua, cotidiana. É cansativo, então.

Tem dias que a gente ( a gente, é sempre eu) só quer existir, sem necessariamente ter que pensar em todos os pormenores (que cá pra nós, são enormes), mas como a gente faz isso quando querem a todo momento nos dizer que a senzala não acabou, só mudou de nome? Como a gente faz isso, se todo dia tem alguém incomodado com a população que agora é capaz de andar de avião?

E apesar disso tudo ou por saber disso, eu tento e me reinvento todo dia. Por mim e pelas minhas (que vieram antes e que ainda estão por vir).

E apesar disso tudo, sigo freneticamente contrariando as estatísticas, os lugares impostos e a dor de não ser ou saber o bastante. Ninguém sabe mesmo de nada nessa vida, não é mesmo?

Sigamos!

Padrão

(…)

Me recolho

em silêncio

traço planos mirabolantes,

me esquivo de todos eles.

Aceito, duvido, divago…

só mais um gole.

À seco…

suspiro.

Parece que foi ontem, tem dez anos.

Dez anos… Dez, dez anos!

O que diabos eu estava pensando?

Em silêncio

recolho,

mirabolantemente,

meus cacos.

Alma lavada

Padrão

Três dias para o fim de uma década. Tem sido difícil. Sempre foi, mas não é só isso. Foi um período bonito de se viver, eu diria. Apesar de tudo, eu que me encontro e desencontro dentro de mim mesma me achei mais do que me perdi. E mais, sim! Tem mais. Aprendi a ficar cada vez mais comigo. A não me deixar ir, mesmo quando todo o resto se foi…

Solitude.

Acho que foi isso. Aprendi a fincar raízes e a cultivar o que há de melhor em mim e eu, até então, nem sabia. Aprendi a ver beleza onde não diziam que existia e passei a enxergar no espelho todas as faces do mesmo ser que sou.

Aos poucos, fui parando de odiar pequenos detalhes do meu corpo e da minha personalidade e passei a respeitar quem sou. É um processo longo, mas algo a ser comemorado. Sobretudo nesse mundo que se vive de aparência (baseada numa estética brancocêntrica. Vale ressaltar).

Sobreviver é cansativo, mas urgente. Viver, pra mim, tem sido mais que verbo. É uma ordem. Tenho vivido, desde então. E mais, sim! Tem mais. Sigo acreditando em mim e nos meus. Viveremos. Apesar de… Viveremos.