Sinto muito, ou nem isso…

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Quando eu era criança, queria ser escritora. Me fascinava a ideia de contar estórias e histórias. Naquela época, eu consumia o que conseguia ter acesso. Normalmente, eram escritas de pessoas brancas para pessoas brancas.

Quando comecei, ainda sem saber como (a gente – que é sempre eu – continua sem saber), “imitava” o que lia e falava de uma realidade que não conhecia. “Você precisa escrever sobre o que você conhece”, um amigo uma vez falou. E eu fiquei pensando sobre o que eu sabia e fui escrevendo cada vez menos. Não achava que sabia de alguma coisa (ainda acho 😀 apesar de saber que tá todo mundo no mesmo barco, ou quase isso… hehehhee)

A primeira vez que tive acesso à uma literatura negra, eu estava em sala de aula, na Unilab. Meus olhos brilharam de felicidade e emoção em saber que existia um lugar para mim e que existia uma literatura que falava por mim, sobre mim e sobre a realidade em que vivia. Havia perdido muito tempo, mas estava animada pelo novo mundo literário que se abria diante dos meus olhos.

Consumir uma literatura onde negras e negros não só eram produtores, mas protagonistas, fez a Mona Lisa criança sorrir. Eu já não sonhava mais em ser escritora, embora continuava e continuo escrevendo. Afinal, o que nos torna alguma coisa? risos…

Conheci Cristiane Sobral e Não vou mais lavar os pratos em uma dessas disciplinas e me senti acolhida pelas palavras da autora. No final, também assinei minha lei áurea. Hoje, a frase, que para mim e Regilene é um manifesto, enfeita a parede da sala onde moramos. É para não esquecermos onde queremos chegar. Para não esquecermos, que ao contrário do que diz a branquitude – que insiste em nos chamar de esnobes e intolerantes pelo simples fato de não passarmos pano para brancos racistas pseudo-antirracistas – a universidade é um lugar que nos pertence, por mais difícil que seja permanecer… É para não esquecermos de quem veio antes de nós, de quem abriu os caminhos.

Fortalecidas com as palavras de tantas outras Mulheres Negras, hoje seguimos reproduzindo: “Sinto muito, comecei a ler” por onde quer que estejamos e sempre que nos questionam porque estamos ali.

Sempre que nossas produções acadêmicas voltam, sem correção ou real leitura por termos “feito mais do que solicitado na atividade em questão”, lembramos do lugar que nos querem, no sub-emprego e dizemos:

Sinto muito, comecei a ler (…)
Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata, cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas

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não existe país sem educação de qualidade

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Nota.: esse texto é um desabafo abortado!

Não consigo externalizar tudo o que sinto. Apenas consigo sentir. E sinto muito. Sinto a perda, o retrocesso, o pavor do que estar por vir, do que não mais poderemos esperar para o futuro. Sinto o medo nos olhos das amigas e amigos que encontro. É o mesmo medo que vejo quando me olho no espelho e não sei o que esperar do futuro que imaginava estar construindo. Sinto o medo da incerteza, do futuro cada vez mais incerto. Sinto raiva. Raiva da nossa impotência. Sim, impotência. Sinto muito…

Menos de dois meses para entregar a dissertação no prazo, perspectiva zero de Doutorado esse ano, talvez ano que vem…

Ainda existirá universidade pública ano que vem? Será possível fazer pesquisas científicas nas universidades públicas ano que vem com corte de 30% nos orçamentos das universidades públicas de todo o país?

As Ciências Humanas, que para muitos não valia nada, ainda terá chance de acolher pessoas interessadas em pensar no Outro (que às vezes, somos Nós, os até então Excluídos da produção de conhecimento), nos problemas sociais, culturais, identitários, etc (sim, todas essas questões são importantes para qualquer país)?

Não é de hoje que o jargão: “O Brasil precisa ser estudado” é dito e reproduzido por aí. Será que as pessoas sabem que é isso que fazem as pessoas das Ciências Humanas?

Menos de dois meses para entregar a dissertação no prazo. Foram mais de dois anos lutando comigo mesma para acreditar que, ao contrário do que pensa a elite brasileira, a branquitude e alguns discentes que tive o desprazer de conhecer, a academia também era um espaço que EU, enquanto mulher negra, pobre e periférica deveria estar. Foram quinze quilos a mais, crise de ansiedade, depressão, auto boicote e a sensação de estar nadando à toa, porque morreria na praia.

Menos de dois meses e o futuro que nunca me pareceu aconchegante, a cada dia, parece mais sombrio do que poderíamos imaginar.

De fato, “são tempos difíceis para os sonhadores”, que ousam sonhar com um país mais justo, igualitário e democrático onde as pessoas podem viver com dignidade.
São tempos difíceis, mas para as minorias – o que é meu caso -, nunca foram tempos fáceis. E apesar do medo, da insegurança, das incertezas, das perdas, da raiva, da impotência, sei que continuaremos firmes, lutando por aquilo que acreditamos e que não nos deixa desistir das lutas cotidianas que somos obrigada/os a travar.

Seguiremos.

Dias nublados

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…das coisas que não ouso falar, questionar, perguntar você é a que mais me inquieta.

Eu sonhei com ele e me lembrei de você. Irônico, não?!

E eu procurei, feito uma louca, qualquer vestígio teu, mas não havia nada… apenas uma trilha invisível que fiz questão de percorrer.

A vida adulta é algo que ainda não sou capaz de compreender. É que esqueci de ler os termos e as instruções. Agora sigo me arrastando de um lado pro outro. Agora? Não, desde que nasci.

Tem sido difícil respirar. Tá tudo tão poluído… o ar, oceanos, rios, lagos e pessoas. Quem diria que o ser racional seria o mais irracional de todos?!

Anda chovendo lá fora.

Dentro de mim,

tempestades.

Shine a light on…

dia um do mês três de dois mil e dezenove

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Dia um de novo e o Tom Odell continua gritando, cantando e durante os minutos de Another Love, sendo minha versão masculina ou isso ou quase isso.

Não gosto de definições, de frases absolutas, definitivas, completas, conclusas. Você, caro leitor inexistente ou quase isso, é assim? Eu não sou.

E o que eu sou? Eu sou continuidade, fluxo… – fluxo de quando em vez, mas não sempre, interrompido, barrado, desviado… – eu sou caminho percorrido e a percorrer. Mundo a descobrir. Você vai rir, eu sei. Eu também faço isso.

Dia um do mês três do ano de dois mil e dezenove. Parece muita coisa para alguns, para outras, coisa pouca, mas não é nada. Ou tudo. Vai saber…

Eu não sei usar ponto e vírgula. vírgula e ponto final também não. Como já disse antes, eu misturo os tempos, eu me afogo em confusão. E eu evito também os términos. Evito, mas não muito. Depois que decido já era. Por isso, adio (se escreve assim? Soa estranho a pronuncia, mas acho que o verbo adiar foi conjugado certo. Preguiça de descobrir, mas se não tiver, pode me avisar que eu edito) ou adiava, agora acho que nem isso eu faço mais e Ponto!

Eu só queria deixar registrado que eu odeio o novo editor em blocos do WordPress! 

Eu sei que ODEIO é uma palavra muito forte. Eu sei. É isso mesmo! Odeio. Espero que isso um dia mude. Assim como passei a gostar de cerveja, açaí e tal e coisa e coisa e tal… por hora, sigo detestando esse troço.

Se você me mandar um oi, eu respondo, viu?

Eu descobri um monte de coisas sobre mim que eu nem sabia, acredita?! (sim, hoje eu estou perguntadeira!) e quando reli umas baboseiras que escrevi quando tinha dezessete anos, eu gargalhei e fiquei feliz por saber que apesar de não parecer, amadureci. Não muito porque isso já seria milagre dos brabos, né?

Dia um do mês três do ano de dois mil e dezenove…

e essa é minha cara quando lembro que vai ter Olodum no carnaval de Fortaleza amanhã (e olha que eu achava, isso mesmo! Achava que não gostava de farra. risos)

Re-ta-lho (II)

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No meu mundo quase perfeito, eu choro. Choro sem dignidade nenhuma, choro como uma tempestade, como se o fim do mundo estivesse ali, na esquina e eu não tivesse ou não soubesse como resistir.
No meu mundo imaginário, eu choro. Choro copiosamente como quando o personagem perde alguém querido. Choro porque não recebi o telefonema que me prometeram, porque desligaram sem dizer adeus, até logo, te vejo amanhã.
No meu mundo de ilusão, eu choro. Choro enquanto preparo o jantar e sei que não existirá uma mesa para dois. Choro porque o tempero é muito e a comida, pouca.
No mundo real, concreto ou quase isso, eu quero chorar, mas só existe um engasgo. Um sentimento velho e antigo que já nem sei mais como pôr para fora e que talvez, sequer permaneça aqui.
Na vida para além da escrita, do conto, do romance fodido que um dia ei de terminar, as lágrimas não caem com facilidade. Aprendi muito cedo que precisava engolir o choro se quisesse que me levassem a sério.
No mundo em que vivo queria chorar, mas as lágrimas não caem.
A máquina quebrou.

 

 

*

Verifico, de quando em vez, o antigo e-mail ainda na esperança de um e-mail seu. Não que isso me importe tanto quanto antes, mas apesar disso ainda espero o mínimo. Eu tenho essa mania, sabe? Acredito que as pessoas fariam por mim o que eu estou disposta a fazer por elas, mas elas nunca estão…

 

 

*

Se eu fosse um personagem de um filme, Theodore eu seria.

 

*

 

 Eu morri uma vez. Você sabe disso. Você e você e você e você também! Eu morri, mas permaneço Aqui.

 

 

 

Já vocês, não mais…

 

 

*

*

 

 Sorrio e sigo.
A vida, apesar de tudo, ainda vale a pena.

 

 

*